Como organizar uma feira de ciências que valorize a investigação?

22 de outubro de 2026


Em poucas palavras: uma feira de ciências investigativa começa com uma pergunta que os alunos conseguem responder com dados coletados por eles. Para organizar, a escola precisa de cerca de quatro meses, um diário de bordo por grupo, critérios de avaliação que olhem para o percurso e uma apresentação em que o público converse com os estudantes sobre o que eles descobriram.

Por que repensar o formato da feira de ciências?

Em muitas escolas, a feira de ciências ainda funciona como uma exposição de maquetes e experimentos clássicos que os alunos reproduzem a partir de um roteiro pronto. O resultado costuma ser bonito, mas o aluno sai dali sabendo explicar o vulcão de bicarbonato sem ter passado pela experiência de formular uma dúvida, testar uma hipótese e lidar com um resultado inesperado.

O momento é oportuno para rever esse formato. Ciências foi a área principal do Pisa 2025, e o Brasil obteve 409 pontos em ciências, a maior nota que o país já registrou na área desde que passou a ser avaliado nela, em 2006. Apesar do avanço, apenas 48% dos alunos brasileiros alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência, e só 1% chegou aos níveis 5 ou 6, contra 7% na média da OCDE. Os níveis mais altos da escala descrevem estudantes capazes de avaliar como uma investigação foi desenhada e de interpretar dados com senso crítico, que é exatamente o tipo de competência que uma feira bem planejada exercita. 

O que muda quando a feira de ciências passa a ser investigativa

A diferença aparece em quase todas as decisões de organização, do ponto de partida ao critério de avaliação. A tabela abaixo ajuda a equipe pedagógica a identificar em que ponto a feira da escola está hoje.

Aspecto Feira demonstrativa Feira investigativa
Ponto de partida Um tema ou experimento escolhido da internet Uma pergunta que surgiu da curiosidade ou de um problema local
Papel do aluno Reproduzir e explicar Planejar, coletar dados, analisar e concluir
O que vai para a mesa Maquete ou experimento pronto Dados, registros do processo e, quando houver, protótipo
O que se avalia Estética e domínio do conteúdo Qualidade da pergunta, do método e da análise
Resultado inesperado Sinal de que algo deu errado Dado a ser explicado

Nem toda escola precisa abandonar de uma vez os trabalhos demonstrativos, sobretudo com turmas muito pequenas. Porém, quanto mais a feira se aproxima da coluna da direita, mais ela cumpre o que a BNCC propõe para o ensino de ciências.

O que a BNCC diz sobre investigação científica?

A segunda competência geral da BNCC pede que o estudante exercite a curiosidade intelectual e recorra à abordagem própria das ciências para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas. Na área de Ciências da Natureza do Ensino Fundamental, o documento organiza o processo investigativo em quatro modalidades de ação: definição de problemas; levantamento, análise e representação; comunicação; e intervenção.

Essas quatro modalidades servem como roteiro para a feira. A definição de problemas corresponde à escolha da pergunta; o levantamento e a análise correspondem à coleta e ao tratamento dos dados; a comunicação é a própria apresentação; e a intervenção acontece quando os alunos propõem alguma ação a partir do que descobriram, como uma mudança na rotina da escola ou um alerta para a comunidade.

Quanto tempo leva para organizar uma feira de ciências?

O prazo mínimo recomendado por quem trabalha com o tema é de quatro meses, o suficiente para que os grupos coletem dados por algumas semanas, errem, ajustem o plano e ainda tenham tempo de analisar o que encontraram. O cronograma abaixo parte da data da feira e conta as semanas de trás para frente.

Semanas antes da feira Etapa Responsável principal
16 a 14 Definir data, público convidado, se haverá tema comum e se a escola vai inscrever projetos em feiras externas Direção e coordenação
14 a 12 Apresentar a proposta às turmas, levantar dúvidas dos alunos e formar os grupos Professores
12 a 10 Transformar as dúvidas em perguntas investigáveis, escrever hipóteses e planejar a coleta; aprovar materiais e procedimentos de segurança Professores orientadores
10 a 4 Coleta de dados e registro no diário de bordo, com conversas de acompanhamento a cada 15 dias Grupos de alunos
4 a 2 Análise dos dados, conclusões, preparação do pôster e ensaio da apresentação para a própria turma Alunos e professores
2 a 0 Montagem do espaço, convites, escala de funcionários e briefing dos avaliadores Coordenação
Depois da feira Devolutiva aos grupos e avaliação do evento com a equipe Coordenação e professores

Reservar uma aula de Ciências por semana para o projeto ao longo desse período costuma ser suficiente, desde que as conversas de acompanhamento aconteçam de fato. É nelas que o professor percebe quando um grupo está apenas pesquisando na internet em vez de coletar dados próprios.

Se a escola quer levar projetos para a FEBRACE

A Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, organizada pela USP, define o calendário de muitas feiras escolares. A 25ª edição terá 300 projetos finalistas na Mostra Presencial, de 15 a 19 de março de 2027, no campus Butantã da USP, e o cadastro de projetos deve ser feito no sistema Minha FEBRACE até 20 de outubro de 2026, às 18h. 

Algumas regras influenciam a forma como a escola organiza os grupos desde o início. Projetos desenvolvidos pela sala toda ou pela escola estão fora das regras de participação, e nas últimas edições os projetos podiam ser realizados individualmente ou em grupos de até três estudantes autores, com participação obrigatória de um professor orientador. O projeto não precisa estar concluído na inscrição, mas os que ainda são apenas uma proposta, sem ao menos coleta de resultados preliminares, não estão adequados para submissão. 

Escolas que fazem a feira interna no primeiro semestre conseguem encaixar os melhores projetos nesse calendário. Outra possibilidade é se tornar feira afiliada, já que os projetos indicados por elas são automaticamente classificados para participar das mostras presencial e virtual. O prazo de afiliação para a edição de 2027 já se encerrou, então vale consultar o calendário do próximo ciclo no site da FEBRACE.

Aprenda a transformar um tema em pergunta investigável

Essa é a etapa que mais diferencia uma feira investigativa de uma feira demonstrativa, e também a que mais exige do professor orientador. Uma boa pergunta para um projeto de feira de ciências tem algumas características: pode ser respondida com dados que os alunos conseguem coletar com os recursos da escola, envolve comparar situações ou acompanhar mudanças ao longo do tempo e tem uma escala próxima da realidade dos estudantes. Perguntas como “Como funciona a energia solar?” são respondidas por pesquisa bibliográfica, e por isso rendem trabalhos expositivos.

A tabela traz exemplos de como um tema amplo pode virar uma pergunta testável em cada segmento.

Segmento Tema amplo Pergunta investigável
Anos iniciais Animais do pátio Em qual canto do pátio as formigas encontram mais rápido um pouco de açúcar?
Anos iniciais Materiais Qual papel absorve mais água: guardanapo, papel toalha ou folha de jornal?
Anos finais Calor na cidade Ao meio-dia, a temperatura do chão muda entre o cimento, a grama e a área coberta do pátio?
Anos finais Som e saúde Em que momentos do dia o ruído nas salas é mais alto, e o que está acontecendo nesses momentos?
Ensino Médio Água A turbidez da água do córrego próximo à escola muda depois de dias de chuva?
Ensino Médio Resíduos Quanto da merenda servida volta para o lixo, e isso varia conforme o cardápio do dia?

Repare que várias perguntas usam o próprio espaço da escola como laboratório. Isso resolve a falta de equipamentos, aproxima o projeto da comunidade e ainda abre caminho para a etapa de intervenção, porque os resultados podem virar uma proposta concreta para a direção.

Para chegar a perguntas assim, o professor pode pedir que cada grupo escreva dez dúvidas sobre o tema escolhido e depois classifique cada uma em “dá para descobrir pesquisando” ou “dá para descobrir medindo ou observando”. As da segunda coluna são as candidatas ao projeto.

O diário de bordo como centro do projeto

O diário de bordo é o registro cronológico de tudo o que o grupo fez, pensou e mudou ao longo da investigação. Na FEBRACE, por exemplo, o Comitê de Avaliação aprecia todo o material produzido pelo estudante finalista (diário de bordo, maquete ou protótipo), além da apresentação oral e da desenvoltura em responder às questões dos avaliadores. 

Ele pode ser um caderno ou um documento compartilhado, e funciona melhor quando cada registro segue um mesmo roteiro. Uma sugestão de modelo para cada encontro:

  • Data e quem participou;
  • O que fizemos hoje;
  • O que esperávamos que acontecesse;
  • O que de fato aconteceu (com números, fotos ou desenhos);
  • O que vamos mudar ou repetir no próximo encontro.

Esse último item é o que mais revela o pensamento científico do grupo. Quando um aluno escreve “medimos a temperatura em horários diferentes em cada dia, então não dá para comparar; na próxima semana vamos medir sempre às 12h”, ele está aprendendo a controlar variáveis, mesmo sem conhecer esse termo.

O que fazer quando o resultado contraria a hipótese

Boa parte dos grupos vai descobrir que a hipótese estava errada, ou que os dados não permitem concluir nada com segurança. A forma como a escola trata essa situação define se a feira valoriza a investigação de fato. Se o critério de avaliação premia apenas quem “acertou”, os alunos aprendem a ajustar a hipótese depois do experimento ou a escolher perguntas cuja resposta já conhecem.

Por isso, vale combinar com os grupos desde o início que uma hipótese refutada, bem documentada e bem explicada, é um resultado legítimo. Na apresentação, o grupo pode mostrar o que esperava, o que encontrou e quais explicações considera possíveis para a diferença.

Critérios de avaliação para a feira de ciências

Uma rubrica compartilhada com os alunos antes do início dos projetos deixa claro o que se espera de cada etapa e ajuda os avaliadores convidados a olhar para os mesmos pontos. O modelo abaixo pode ser adaptado à faixa etária.

Critério Em construção Adequado Avançado
Pergunta Ampla, respondida por pesquisa bibliográfica Testável, mas pouco delimitada Testável, delimitada e ligada a um contexto real
Planejamento Sem plano de coleta definido Plano definido, com variáveis pouco controladas Plano que compara situações mantendo as demais condições iguais
Registro Diário incompleto ou escrito no final Registros regulares, com poucos dados Registros regulares com dados, ajustes e justificativas
Análise Repete os dados sem interpretá-los Interpreta os dados e chega a uma conclusão Interpreta, reconhece limites da coleta e sugere novos testes
Comunicação Lê o pôster Explica o percurso com clareza Explica o percurso e responde a perguntas fora do roteiro

Organização do espaço e do dia da feira

A logística continua importante, mas ganha outro propósito. Em vez de distribuir os projetos por turma, a escola pode agrupá-los por tipo de pergunta (água, calor, alimentação, comportamento animal), o que facilita o percurso dos visitantes e cria conversas entre grupos que estudaram assuntos parecidos.

Algumas medidas ajudam o público a perceber o caráter investigativo dos trabalhos:

  • Pedir que cada pôster traga, em destaque, a pergunta do grupo e o principal dado encontrado;
  • Deixar o diário de bordo aberto sobre a mesa, para consulta;
  • Entregar aos visitantes um cartão com perguntas sugeridas, como “Qual era a dúvida de vocês?”, “O que mudou no plano ao longo do caminho?” e “O que fariam diferente se começassem de novo?”;
  • Orientar avaliadores convidados (professores de outras escolas, pesquisadores de universidades próximas, profissionais da comunidade) a usar a rubrica combinada.

Quanto à segurança, todos os materiais, substâncias e procedimentos precisam ser listados pelo grupo e aprovados pelo professor orientador ainda na fase de planejamento, e não às vésperas da feira. A acessibilidade do espaço também deve fazer parte dessa lista de verificação, com circulação livre entre as mesas e lugares reservados para pessoas com deficiência e seus acompanhantes.

Perguntas frequentes (FAQ)

Quanto tempo antes é preciso começar a organizar uma feira de ciências?

O ideal é começar cerca de quatro meses antes da data do evento. Esse prazo permite que os grupos coletem dados por várias semanas e corrijam o plano quando algo não funciona.

A feira de ciências precisa ter um tema único?

Não. Um tema comum ajuda a integrar disciplinas e dá unidade ao evento, mas a escola pode deixar os grupos escolherem livremente, desde que cada um chegue a uma pergunta investigável.

Qual a diferença entre um experimento e uma demonstração?

Na demonstração, o resultado já é conhecido e o aluno o reproduz. No experimento, o grupo testa algo cujo resultado ainda não sabe, comparando situações e registrando dados.

Projetos feitos pela turma inteira podem ir para a FEBRACE?

Não. A FEBRACE aceita projetos individuais ou de pequenos grupos com professor orientador, por isso escolas que pretendem inscrever trabalhos devem formar grupos pequenos desde o início.

Como avaliar um projeto cuja hipótese não se confirmou?

Avaliando o percurso: a qualidade da pergunta, do planejamento, do registro e da análise. Uma hipótese refutada com dados bem coletados e bem interpretados demonstra o mesmo domínio do método científico que uma hipótese confirmada.

Editora do Brasil S/A
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