O que o Pisa 2025 revela sobre a sala de aula brasileira?
29 de outubro de 2026
Em poucas palavras: o Brasil fez 409 pontos em Ciências, 408 em Leitura e 377 em Matemática no Pisa 2025, resultado abaixo da média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e, praticamente, igual ao de 2022. Por trás da média estável, os questionários da avaliação trazem um retrato útil para o professor.
Um resultado estável com uma boa notícia em ciências
Os resultados do Pisa 2025 foram divulgados pela OCDE em setembro de 2026, e a manchete se repetiu em quase todos os veículos: o Brasil segue abaixo da média dos países desenvolvidos nas três áreas avaliadas, como acontece desde que o país passou a participar do exame, em 2000. Também se repetiu a constatação de que o desempenho brasileiro pouco mudou desde 2015.
Essa leitura está correta, porém deixa de fora um dado que merece ser comemorado nas escolas. Ciências foi a área principal desta edição, e os 409 pontos são a melhor nota que o Brasil já registrou na área. A parcela de estudantes com desempenho muito baixo em Ciências também diminuiu em relação a 2015, o que não aconteceu em Leitura nem em Matemática. Ainda é pouco, já que só 48% dos alunos alcançaram o nível considerado básico pela OCDE, mas é um movimento na direção certa e o único das três áreas.
Convém, por outro lado, olhar com cuidado para a notícia de que o Brasil “encurtou a distância” em relação aos países ricos. Isso aconteceu em grande parte porque eles pioraram. Em Matemática, o país avançou 7 pontos desde 2006, enquanto a média da OCDE recuou mais de 30.
O que já funciona e merece ser reconhecido
Os dados também trazem um reconhecimento que raramente aparece nas manchetes. Oito em cada dez estudantes brasileiros dizem que, na maioria das aulas de Ciências, o professor demonstra interesse na aprendizagem de cada aluno e continua explicando até que a turma entenda. Nos dois casos, o Brasil está bem acima da média da OCDE. Em um país onde se fala tanto da desvalorização docente, os alunos estão dizendo que percebem o esforço de quem os ensina.
A relação dos jovens com a escola também melhorou. A parcela que considera a escola uma perda de tempo caiu para 16%, abaixo da média internacional, e esse sentimento faz diferença na aprendizagem, porque os estudantes que valorizam a escola tiveram, em média, 35 pontos a mais em Ciências. Os brasileiros demonstram ainda um interesse acima da média por questões ambientais, a grande maioria acredita que pode ter um impacto positivo no meio ambiente e confia na ação coletiva para isso.
Esses indicam pontos de apoio. O interesse por meio ambiente, por exemplo, é uma porta de entrada para aulas em que os alunos investigam problemas reais do bairro ou da escola, com coleta e interpretação de dados, que é justamente o tipo de habilidade que o Pisa cobra. A boa relação com os professores é outro trunfo, já que mudanças de rotina e de expectativa costumam ser mais bem aceitas por turmas que confiam em quem as propõe.
Onde o tempo de aula se perde
Se o vínculo com o professor é um ponto forte, o ambiente da sala de aula é um ponto fraco. Quase metade dos estudantes brasileiros relata que barulho e desordem interrompem a maior parte das aulas de Ciências, e um em cada quatro diz que não consegue trabalhar bem. Há também a distração causada por dispositivos digitais, que no Brasil está associada a uma diferença de 19 pontos, quase o dobro do que se observa na média da OCDE.
Como a maioria das escolas brasileiras já restringe o celular, em boa parte por causa da Lei nº 15.100/2025, a discussão agora pode avançar para como as aulas começam e se organizam. Combinados claros nos primeiros minutos, uma sequência de atividades que os alunos já conhecem e orientações específicas sobre quando um dispositivo pode ser usado para aprender reduzem o tempo gasto com dispersão. A OCDE observou que os países que melhoraram o clima disciplinar tendem a manter ou elevar o desempenho em Ciências, e o Brasil foi um dos que melhoraram nesse aspecto desde 2015, o que mostra que a mudança é possível.
O tempo de aula também se perde fora da sala. Mais da metade dos alunos brasileiros faltou pelo menos um dia nas duas semanas anteriores à prova, mais que o dobro da média internacional. Faltas frequentes fazem o aluno perder a sequência do conteúdo, e cada volta exige do professor um esforço de retomada que afeta a turma inteira. Quando a coordenação acompanha as ausências semanalmente, por nome, e procura a família logo nas primeiras faltas seguidas, o problema é tratado antes de virar abandono. Esse contato tem um valor adicional, porque o próprio Pisa registrou que os pais estão conversando menos com os filhos sobre a escola do que em 2022.
A Matemática que ficou para trás
O dado mais duro do Pisa 2025 é o de Matemática. Sete em cada dez estudantes de 15 anos não conseguem perceber sozinhos como representar matematicamente uma situação simples do cotidiano, como comparar a distância de dois caminhos ou converter um preço para outra moeda. São alunos que, em sua maioria, já estão no Ensino Médio.
Esse resultado não se resolve dentro da série em que o aluno está, porque a dificuldade vem se acumulando há anos. Quando o professor segue o currículo sem saber o que a turma domina dos anos anteriores, o conteúdo novo não encontra base para se apoiar, e a distância cresce. Por isso, o primeiro passo é um diagnóstico que identifique quais habilidades faltam a cada grupo de alunos, seguido de momentos regulares de recomposição ao longo do ano todo. Problemas próximos da vida dos estudantes, como calcular o preço por unidade no mercado ou o tempo de um trajeto de ônibus, aproximam a aula do que o Pisa avalia e ajudam o aluno a perceber para que serve aquilo que está aprendendo.
A melhora ainda não chegou a todos
O avanço em Ciências tem um limite importante, entre 2015 e 2025, os alunos de famílias mais favorecidas melhoraram, enquanto os mais pobres ficaram no mesmo lugar, e a distância entre os dois grupos aumentou no Brasil, ao contrário do que aconteceu na média dos países da OCDE. Hoje, os estudantes mais ricos superam os mais pobres em quase 100 pontos.
Dentro da escola, esse dado pede atenção a quem costuma ficar invisível, como o aluno que falta mais, que não pergunta e que entrega as atividades incompletas. A OCDE identifica que, mesmo entre os estudantes mais pobres, cerca de um em cada dez alcança desempenho entre os melhores do país, o que mostra que a origem não determina o resultado. Práticas como a tutoria entre colegas, em que alunos que dominam um conteúdo ajudam os que têm dificuldade, e a devolutiva frequente sobre o que cada estudante já avançou ajudam a sustentar esses alunos. O Pisa mostra também que pedir ajuda está associado a um desempenho melhor, e que os brasileiros pedem ajuda a professores e colegas tanto quanto os jovens de outros países, o que é uma base a ser aproveitada.
Um retrato para orientar o próximo ano
O Pisa 2025 não traz um diagnóstico novo sobre o tamanho do desafio brasileiro, mas oferece um retrato detalhado de onde ele está. Parte do problema depende de políticas públicas, como a formação de professores e a redução das desigualdades entre redes e regiões. Outra parte, porém, acontece todos os dias na escola: o tempo de aula que se perde, o aluno que deixa de vir, a defasagem que ninguém mediu, a pergunta que não é feita.
Ao mesmo tempo, os estudantes brasileiros dizem que reconhecem o empenho dos professores, valorizam mais a escola e se interessam pelos problemas do mundo. Levar esses dados para a reunião pedagógica, junto com os resultados das avaliações internas e do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), é uma forma de planejar 2027 a partir do que os próprios alunos estão dizendo. Pronto para encarar esse desafio?
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é o Pisa?
O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) é uma avaliação coordenada pela OCDE que mede o que estudantes de 15 anos sabem fazer em leitura, matemática e ciências. No Brasil, a aplicação fica a cargo do Inep, e o país participa desde a primeira edição, em 2000.
Qual foi a nota do Brasil no Pisa 2025?
O Brasil fez 409 pontos em ciências, 408 em leitura e 377 em matemática. As três notas ficaram abaixo da média dos países da OCDE.
Em que posição o Brasil ficou no ranking do Pisa 2025?
O país ficou em 67º lugar em ciências, entre 90 participantes, em 52º em leitura e em 71º em matemática, entre 89. Como o Pisa é feito por amostragem, países com notas próximas podem estar estatisticamente empatados, por isso a posição deve ser lida como aproximada.
O Brasil melhorou ou piorou no Pisa 2025?
O desempenho ficou estável em relação a 2022, com uma leve alta em ciências e pequenas quedas em leitura e matemática. Em ciências, os 409 pontos são a maior nota da série histórica do país na área.
Quem faz a prova do Pisa no Brasil?
A prova é aplicada a uma amostra de estudantes de 15 anos, a maioria na 1ª ou 2ª série do Ensino Médio. Em 2025, participaram 30.140 alunos de 1.053 escolas públicas e privadas.
O Pisa mostra o resultado de cada escola?
Não. Como a avaliação é amostral, os resultados são divulgados por país e não por escola ou aluno. Para acompanhar o desempenho da própria escola, os instrumentos indicados são o Saeb e as avaliações internas.
Quando sai o próximo resultado do Pisa?
A OCDE vai divulgar em 2027 a parte do Pisa 2025 sobre aprendizagem autorregulada em ambientes digitais. A próxima edição completa da avaliação está prevista para 2029.